Muito provavelmente o CAP irá sair da UTI a partir da próxima semana. Graças a esparadrapos colocados a pressa ali e acolá, e a sobrevivida garantida a custas de medicamentos de natureza psicotrópica.
A partir da próxima semana, disciplinas até então sem professores serão cobertas por substitutos que tiveram a sua carga horária dobrada, e será dito que isso foi uma conquista! É provável que uma ou outra disciplina continue à espera de algum professor que a assuma, mas esse professor aparecerá. E será dito que isso foi uma conquista! O movimento sindical – a ADUFRJ – irá lançar notas, publicará em seu jornal, que a “luta continua”, “mais verbas para a educação”, “que a culpa é do neoliberalismo”, “todos pelo ensino de qualidade”!
Com doses de antidepressivos, de estabilizadores do humor e de estimulantes, é muito provável que o ano de 2011 chegue ao fim e que tudo pareça ter retornado à normalidade.
Alguns alunos terão deixado o CAP e ingressado em outra Escola; porque seus pais têm condições para pagar uma Escola particular e não querem passar os próximos anos na incerteza sobre que novas crises os esperam. Outros alunos ingressarão no CAP; porque entre as Escolas públicas, afinal de contas o CAP deve continuar a estar entre as melhores; se não, porque já virou lugar comum no imaginário social de que quem está em Escola pública deve aceitar as sistemáticas crises e jogar a responsabilidade sobre os Governos do momento.
Se faço homologias entre fenômenos comuns ao campo da saúde – como paciente, UTI, esparadrapos, medicamentos psicotrópicos, por exemplo – e o que estamos vivendo no CAP, isso é para chamar a atenção para a CRISE. Se quisermos ser mais objetivos, podemos fazer a seguinte leitura:
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A (1) A atual crise no CAP nasce quando as estruturas de sua gestão administrativa e pedagógica existentes estão sendo afrontadas a problemas para as quais as suas estrutura são insuficientes para as possíveis soluções. Ao contrário do que à primeira vista possa parecer, essa crise não é circunstancial, mas resultante de problemas permanentes que vem se acumulando nos últimos tempos.
(2 (2) Pode-se criticar essa leitura dizendo que a crise está sendo engendrada de fora, por modificações contingentes ao meio ambiente do CAP, como a conjuntura política, por exemplo. Por conseguinte, pode-se atribuir à ação da política educacional do Governo Dilma as forças produtoras da crise. E assim dizer que a crise do CAP se deve a corte de verbas, a exigências de produtividade dos prestadores de serviços públicos, ao estabelecimento de diretrizes a nortear a relação numérica professor/aluno, etc.
(3 (3) Que o CAP não está isolado do seu meio ambiente, disto não temos dúvidas; que o CAP enquanto prestador de serviço público à população esteja sujeito à política governamental, sabemos igualmente, assim como que se trata de um Governo legitimamente constituído e do qual se espera, entre outras coisas, que garanta que as instituições públicas sejam de qualidade e eficientes.
(4 (4) Ora, que estruturas internas do CAP estão sendo colocadas em questão? E como tais estruturas demonstram ser incapazes de apresentar soluções possíveis, enquanto permanecerem fixas, conservadas em seu status quo?
a. A gestão administrativa e pedagógica está fechada, isolada, funcionando segundo os interesses corporativos e para a defesa de seus interesses. Os pais não participam ativamente, democraticamente, com voz e voto, seja nas instâncias de planejamento pedagógico, seja nas instâncias de decisão administrativa. Por sua vez, a participação do Grêmio estudantil é na prática figurativa. Ora, tais estruturas são incompatíveis com as demandas de participação democrática que vem de fora da corporação dos professores e funcionários técnico-administrativos.
b. Há uma identidade construída de que a finalidade principal do CAP é formar licenciandos. É verdade que isso consta do ato de fundação do próprio Colégio de Aplicação, há mais de 60 anos. Ora, vem de fora o questionamento dessa identidade. Quando se escuta a diretora do CAP dizer que os nossos filhos-alunos são “efeito colateral”, porque o foco está nos licenciandos, tal declaração revolta, produz reações; entre nós e nossos filhos, mas muito provavelmente da sociedade como um todo. É como se aceitássemos que um Hospital Universitário tenha como finalidade fundamental formar internos e residentes, e que os pacientes são “efeito colateral”. Mas é, justamente, porque tal identidade está enraizada entre os professores do CAP que se pode criar estruturas que não estão voltadas principalmente para os alunos do ensino fundamental e do ensino médio.
c. Os professores do CAP se dão o direito de fazerem a sua pós-graduação sem um planejamento prévio. Por que? Que estruturas internas permitem tal descalabro administrativo? Tal prática não é comum em nossas Universidades públicas; aqui neste Fórum denunciamos isso inúmeras vezes. Os professores do CAP se dão o direito de se afastarem de sala de aula quando ocupam cargos administrativos. Que estruturas internas permitem isso? São tais estruturas internas que autorizam o uso indiscriminado do expediente “professor-substituto”. Ora, tal expediente é por natureza incompatível com a qualidade de ensino. Em princípio, professor-substituto é o tal do “carregador de piano”: não tem hora prevista para pesquisa e extensão. O movimento sindical não combate isso: duas categorias de professores tão distintas em sua função de magistério! Ademais, como fazer um planejamento pedagógico com professores que estão na Instituição por um período previamente determinado, curto, em geral no máximo de 2 anos? Que planejamento a médio e longo prazos são possíveis com a estrutura de “professor substituto”? Nossos filhos permanecem na Escola no ensino fundamental e / ou ensino médio; quem fica na Escola por um semestre ou dois, são os licenciandos. A serviço de quem tais estruturas internas existem? Há dúvidas de que tais estruturas pedagógicas e administrativas não estão no CAP em funçao dos nossos filhos-alunos?
Concluindo:
A meu ver, a superação da crise do CAP apenas poderá se impor mudando ao mesmo tempo várias de suas estruturas internas de gestão pedagógica e administrativa, como igualmente seus valores teóricos com respeito à missão de um Colégio de Aplicação.
Tais mudanças de regulação não virão espontaneamente de dentro da corporação formada pelos professores e funcionários técnico-administrativos do CAP. Muito menos da ADUFRJ e da ANDES. Acredito sim, que se a própria UFRJ for pressionada, via as suas instâncias político-deliberativas, algo pode mudar substancialmente; porque hoje o CAP está isolado dentro da sua própria Universidade. E, talvez, pela via judicial; embora, na medida em que a crise imediata do CAP for debelada, eu entendo que o jurídico não irá se meter na “autonomia universitária” – visto que passa a ser uma problemática político-educacional que a própria Universidade terá que enfrentar. Deixamos passar o "timing" para fazer com que a Justiça provocasse de fato uma reação interna do CAP. Quanto ao Governo Federal, penso eu que qualquer iniciativa não será pontual, mas que dirá respeito aos CAPs federais em geral.
É isso aí, colegas.